O Acossado
Terça-feira, 14 de Julho de 2009
Sexta-feira, 10 de Julho de 2009
A toi

Há filmes em que penso regularmente, que nos tocam bem fundo e que sentimos que os levamos connosco. Mas com Belle de Jour é mais ainda, não é só um filme obsessivo, livre como o mais livre dos filmes, é um filme que nos liberta enquanto espectadores que testemunham imagens sonhadas por outros - e por nós, sem talvez o sabermos. E perceber que quando já vivemos com isso, que nos sentimos não só livres enquanto espectadores, mas livres enquanto pessoas. É, primeiro, a descoberta da nossa complexidade, que reprimimos e recalcamos. E em seguida, a exploração dessa mesma, sentindo que podemos viver, de facto, com tudo o que temos e guardamos - como na caixa do segredo do cliente asiático (cujo conteúdo nunca é revelado), assumindo fantasias como desejos e que é por elas que nos completamos. Já não se trata da satisfação de sentir o cinema como plataforma ideal, única e fantástica para expôr os nossos desejos, mas sentir que é por ele que nos expomos enquanto pessoas, enquanto seres que desejam, desejam, desejam, procuram-se e assumem tudo aquilo que querem ser. Belle de Jour fascina-me como me fascino pela complexidade das pessoas, alimenta-me de imagens e dá corpo às minhas, faz-me entender que um olhar esconde palavras e que as palavras escondem desejos, e que talvez possamos vivê-las não só dentro mas fora das nossas vidas, não só dentro dos nossos sonhos mas através dos nossos corpos. E as pernas de Deneuve que se arrastam não são mais que isso: são pernas que já não querem resistir, que vão ao encontro das suas pulsões na satisfação de si, do outro, do que a espera. São pernas arrastadas, mas são as pernas mais livres que já vi à minha frente. E porque o surrealismo é uma declaração de vida ao amor, a resposta à pergunta que se ouve repetidamente:
A quoi penses-tu, Séverine?
-, é a maior declaração de amor que se dá àquele que nos deseja:
à toi.
.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
Autores
Ligações
- Ainda não está escuro
- Ana de Amsterdam
- Apeloeh
- As Aranhas
- Chained and Perfumed
- Cruel Vitória
- Dias Felizes
- E Deus Criou a Mulher
- Esquisito da Esquina
- French Kissin'
- If Charlie Parker Was a Gunslinger, There'd Be a Whole Lot of Dead Copycats
- Ladies Love Cool R
- Ma-Schamba
- Mise en Abyme
- Notas de Capicua
- O Silêncio dos Livros
- O Touro Enraivecido
- Os Livros Ardem Mal
- Paraíso do Gelado
- Phantom Limb
- The Sartorialist
- umblogsobrekleist
- Vidro Duplo
- Vontade Indómita